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Sala dos Professores

Foto por: Professora Luana Camargo.

Religiosamente, tomaria o café, ali, na sala dos professores, porque o copo de café é um ritual sagrado, necessário, urgente. Pouco seria pelo próprio café em si, era pelo segurar do copo, pelo sopro a sair da boca colado à borda, pelo punhado de peta na outra mão, pelo extremo cuidado que o corpo da gente tem quando segura algo quente. Sentia que ser professor era constantemente segurar algo quente. O medo de derramar e se queimar e queimar o outro e fazer bagunça e manchar a roupa e molhar as provas e sujar o chão e derrubar o livro e falar um palavrão na hora em que o aluno passasse pontualmente na hora do caos. E assim seria. E por isso a olhada de canto para a cadeira em que se senta, o sorriso amarelado (de café) para o colega professor do lado, uma simpatia mútua, minúscula, um cumprimento de cabeça desengonçado de quem segura algo quente na mão e tem medo. E acomodados e fazendo ventanias sobre os copos de café, ouviria-se um coral de “hummm” prolongados e cansados, uma confirmação constante da tentativa de beber o café e de que, sim, aquela turma seguiria impossível, dificílima de dar qualquer aula, qualquer rastro de conteúdo, e pesaríamos por aqueles “bons alunos” no entremeio dos que exigiam que, na sala dos professores, sobretudo se bebesse café. Nos últimos dois dedos, o corpo relaxaria os braços, mas nunca os ombros, o café esfriava, e alguém perguntaria quanto falta para o fim do intervalo e o suspiro seria longo e depois curto e depois se levantaria bruscamente. Defronte a garrafa e hesitando mais meio copo, olharia para todos os outros professores, e olharia para algum reflexo imaginário de si, desejaria uma praia, e desejaria que todos ali ainda amassem alguma coisa dessas que fica entre a unha e os resquícios de tinta do pincel de quadro, e desejaria que as turmas fossem menos impossíveis, e desejaria que pudesse balbuciar algo além, e desejaria que sua esperança não fosse como um copo de café que, por sinal, o veria vazio e, vacilante, ainda sentiria como se estivesse mesmo segurando algo quente.

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Texto por: Elara A. Moretz-Sohn

Revisão por: Paulo Narley

Contato para sugestões ou correções, envie e-mail para: redacao.geleiatotal@gmail.com

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