Na estrada de Amarante, perto de Água Branca, há um bar “nada tendencioso”, que abriga fotos, panfletos, santinhos e cartazes de diversos políticos em época eleitoral.
O bar está sitiado de exemplares de campanha, sem quaisquer preferências partidárias. Não há altares específicos bem selecionados para agregar fé ao voto ou às manifestações pós eleições nacionais.
Lá comi pastelzinho e coca cola. Nordeste e Estados Unidos se cruzam nos confins das minhas vísceras, em regurgitação. Há opções polarizadas e alguma tolerância incrustada nessas andanças gastronômicas…
Vamos pensar!
Há também uma sabedoria quase cínica e profundamente engenhosa no dono desse boteco de beira de estrada: vale ressaltar. Ao abrir a parede para todos os santos de palanque, ele não está professando fé em ninguém; está, na verdade, cobrando o pedágio visual da sobrevivência. Na terra onde a paixão partidária costuma cindir famílias e interditar conversas, o ecumenismo das entranhas do boteco é uma declaração velada de pragmatismo: quem entra para tomar um refrigerante de origem estrangeira, ou comer um pastel de vento, não encontra um palanque inimigo, encontra apenas um espelho, caos visual e uma morada passageira para ideias ou para pés cansados de determinadas viagens.
Há passagem do tempo e uma certa resistência colecionando, involuntariamente, a mesma poeira de asfalto que liga Teresina à Água Branca. Ali, a ideologia perde a pompa retórica e vira papel de parede para um ritual muito mais urgente: a digestão. O pastel de massa estaladiça, frito no óleo quente do Médio Parnaíba, descendo acompanhado de um xarope carbonatado de Atlanta, é uma síntese em contradição.
Não deixa de ser poético que a gente passe a vida tentando delimitar fronteiras (identitárias, políticas e geográficas), enquanto nossas próprias entranhas operam a tal síntese, mais desavergonhada do mundo, sem pedir licença a nenhuma cartilha.
Talvez essa tolerância do boteco não nasça de uma virtude nobre, daquelas desenhadas pelos filósofos iluministas, mas da pura constatação de que a estrada continua depois da curva e a vida precisa seguir aberta para quem chega. Ou, fazendo apologia à conclusão do filósofo do absurdo, diante das agruras de Sísifo: é preciso imaginar o eleitor/freguês feliz!
–
Texto por: Ana Cândida Carvalho
Revisão por: Joana Tainá
Contato para sugestões ou correções, envie e-mail para: redacao.geleiatotal@gmail.com
Que escrita inteligente! A costura entre a cultura local, o pragmatismo político e as referências filosóficas no final ficou simplesmente genial. Parabéns pela sensibilidade, Ana Cândida. Ah, adorei a ironia fina nessa narrativa textual. Brava!!!