Piano abandonado, de Mario Bento Gonçalves

Este piano, que vês, abandonado agora,
Sem carteias gentis de uns dedos delicados,
Docemente vibrando os límpidos teclados,
Como de alguém se ouviu divinamente outrora.

Este piano que vês, onde a tristeza mora,
Erguendo-se a florir dos tempos apagados,
Recorda o meu amor, os sonhos torturados,
Nesta angústia cruel que os corações devora.

Calado, assim, traduz uns olhos rasos dágua
E uma saudade, enfim, que chora e os céus não ouvem,
A sofrer na mudez suprema desta mágoa!

Este piano martírio fala às coisas mais secretas!
Este silêncio vibra um trecho de Beethoven,
Interpretando, assim, as almas dos poetas!

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