Urgente: assista ao espetáculo Dorothy, por Alisson Carvalho

Foto: Wagner Santos

Susy Gomes encarna uma personagem deveras forte. O monólogo Dorothy, escrito pelo Roberto Muniz Dias, trabalha alguns dos temas mais pesados que podemos encontrar na sociedade: violência contra a mulher e contra a criança.
De certa forma, o espectador é colocado cara a cara com a ideia da infância e passamos a perceber, sem nos darmos conta, as transformações acerca desse tema. Portanto, a infância deixa de ser um fenômeno natural para ser observada no seu aspecto histórico e social. Nem sempre existiu o reconhecimento social da infância, por isso, algumas digressões são essenciais. Perceber as subjetividades e a leitura de uma criança é algo que está latente no texto e é transmitido da maneira mais crua possível.
Para demonstrar a importância dessas instâncias e a profundidade dessa dramaturgia, recorro à Varela e Uria (1992), que falam do surgimento das escolas no início do século XIX, em um contexto no qual havia uma proteção da criança rica por meio da família e da escola, enquanto as crianças pobres eram delegadas às instituições de caridades e ficavam afastadas das suas famílias.
Com isso, quero dizer que existe um atravessamento de várias questões. Para além da infância, entra a questão de classe, raça e gênero. E esses assuntos são percebidos e vomitados na plateia, fazendo com que surja a reflexão sobre a importância dos processos socializadores no desenvolvimento dessa pessoa que tem a sua autonomia, sua cultura e cria as suas leituras desse mundo, um mundo de violências.
Sem nenhum constrangimento, o texto nos coloca de cara com o risco e, para isso, Susy trabalha diferentes máscaras faciais nas quais injeta na cena toda a crueza de uma pessoa atravessada pela violência.
Não há momento para respirar. Embora seja um texto completo de nuances, o medo, pavor e desconfiança estão presentes no corpo da atriz desde os primeiros segundos em cena. O ambiente onírico e sombrio repleto de penumbras demonstra um pouco do desamparo e da mente destroçada pelos traumas adicionados ao longo da vida dessa mulher tão maltratada pelo mundo.


A crueza da verdade jogada na cara no público é ampliada por ações tensas, sempre centradas no triângulo no qual a personagem está inserida. As lembranças ditas em tom de confissão (não para uma, mas para todas as mulheres) são materializadas na voz de Susy Gomes, e não temos outra alternativa senão embarcar nessa história que incomoda de tão viva que se torna.
O problema multifacetado da personagem que gera suas lesões e traumas expõe um assunto urgente e necessário, pois a cidade de Teresina registrou um aumento dos casos de feminicídio. A peça, portanto, sendo redundante, não é uma peça fácil de ser digerida, já que incomoda do início ao fim.
A direção é assinada por Arimatéia Bispo que também elaborou a iluminação construída para nos inserir no universo caótico da personagem e que cria a áurea de tensão constantemente explorada pela atriz. Com ações bem definidas, a direção trabalha economizando em movimentações para, provavelmente, dilatar a performance da atriz no palco. E provoca o público, na medida em que não tira a responsabilidade, mas compartilha a missão de levar a diante o poder de interferir na infeliz realidade em que estamos imersos: uma sociedade misógina, machista, patriarcal, hipócrita, que assassina pela ação e pela omissão.

Foto: Wagner Santos

Ficha técnica:

Direção: @arimateiabispo

Texto:@robertomundias

Fotos e arte: @robinsonlevy.mkt

Apoio: @grupoutopiagut

Realização: @coletivo_cotjoc

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