Filomena, Filó pros íntimos, por Alisson Carvalho

Ela correu desesperada, Filomena ficou encurralada. Não havia mero rastro de passado na grama, apenas um punhado dalgumas lembranças. Algumas tão lúcidas, outras insanas. Quem a via sabia tão logo da cria, fora pega noutra ninhada pra ser cuidada na casa farta. Filó, só pros íntimos, era o orgulho do terreiro e fez amigos até entre os ancestrais guerreiros. Ainda pequena demonstrou seus dons, ela era uma companheira mesmo com os muitos afãs. Amava a simplicidade, ainda assim tinha as suas vaidades. Filó, “Lomena, o pedaço é só pros mais próximos”, completava com o seu idioma primitivo que só era traduzível pros amigos.

Ela era a próxima oferenda, mas de tanto amor que despertou livrou-se do ritual, deixaram a porta do terreiro entreaberta e ela fugiu proutro quintal. Foi alguma visagem, ninguém sabe, o que importa é que Filó surgiu na margem. Observou o terreno e decretou sem muita enrolação que dali em diante aquele seria seu novo lar, tratou então de o explorar.

Vó, tem uma pata no quintal.

Chispa sem demora o animal, ela vai destruir as roseiras e vai lambuzar o resto do jardim.

Vó, ela até gostou de mim.

Dá-me aqui essa pata. Olha aqui, vai-te embora pros teus cantos… Mas num é que ela tem até seus próprios encantos?

Ela gostou de ti!

A pata esfregou-se na família e ganhou um lugar no lar, construiu uns ninhos como quem sabe as cria criar. Foi tão astuta que ganhou inté um nome e livrou-se dos gulosos olhos dos orixás. Seus olhar profundo, entende de tudo, mas só não sabe é falar.

Filó ciscou cuidadosamente aquele terreno e encontrou os diamantes da vida entre o matagal rasteiro. Descobriu que o melhor do mundo está no seu quintal, já que com seus mimos se tornou a rainha daqueles carnavais, dona do milharal e gestora do arrozal.

 

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