Resenha da obra “A Sociedade do Através” de Carlos César (2019)

Montagem feita com o mapa de Teresina desfocado ao fundo e com o livro físico e um tablet com a capa do e-book de A Sociedade do Através do autor Carlos César. A capa é amarela e tem um desenho em preto de uma pessoa coberta por um pano.

Revisão: Joana Tainá

Aviso de gatilho: aborda temas como suicídio, depressão e violência contra mulher etc.

E se existisse algo escondido no meio da rua, andando pelas calçadas? E se existisse toda uma sociedade através do que percebemos de Teresina? É para essa realidade que o livro de Carlos César nos leva. Passar pelo Através não é tarefa fácil, há muitos segredos e perigos esperando tanto nas sombras quanto no pingo do meio dia.

Logo de cara, conhecemos Cristina, uma jovem comum, que recebe o chamado para aventura de uma misteriosa senhora. Depois de uma demonstração de poder que congela o tempo no centro da cidade, o mundo de Cristina vira de ponta-cabeça. Há criaturas mágicas vivendo entre as pessoas, há toda uma dimensão invisível engolindo Teresina.

De posse de um mapa, Cristina parte em sua jornada para descobrir o que aconteceu com sua amiga que está desaparecida há dias, quem a levou e o que querem com ela. As pistas que possui até o momento são apenas que um tal de Senhor Amarelo está tramando algo terrível, e que ela precisa procurar pelas lendas mais famosas da cidade para aprender mais sobre o Através e conseguir poder o suficiente para impedir o Senhor Amarelo.

“A inspiração em tudo veio da trilogia X de Jeff Vandermeer. Eu queria muito criar um ‘espaço destrutivo, mutável e experimental’ como a Área X dos livros de Aniquilação (que tem até filme da Netflix).” (Trecho da entrevista dada por Carlos César ao Geleia Total)

A Teresina do Através

Mapa de Teresina adaptado ao universo do livro. Há várias localidades ficcionais.

A cidade de Teresina aparece já no nome da personagem que possivelmente faz referência à Teresa Cristina – imperatriz e esposa de Dom Pedro II – e de onde veio o nome de Teresina como uma homenagem a ela.

Mas não para por aí. No primeiro livro, conhecemos um pouco do Centro e da Zona Leste. Vemos as praças do centro de Teresina, como a Praça Saraiva onde encontramos a Num se Pode; caminhamos pelos canteiros da Frei Serafim; visitamos o Cabeça de Cuia no rio Parnaíba; subimos no mirante da Ponte Estaiada e mergulhamos no rio Poti.

A cidade é mais do que apenas cenário. Ela se fragmenta e alguns de seus aspectos se personificam em vários personagens. O “complexo de vira-lata” de que só as coisas gringas é que prestam aparece no personagem Cristian – o Crispim (Cabeça de Cuia); o cansaço e a apatia que alguns sentem com a cidade também estão presentes na obra através do Senhor de Amarelo, que suga a energia vital dos teresinenses sem que eles percebam.

Outra coisa que o vilão Amarelo faz é aprisionar as criaturas mágicas ao construir paredes invisíveis por toda a cidade para que os habitantes do Através fiquem presos a determinadas áreas. Aqui temos materializada a sensação de isolamento, de falta de perspectiva/oportunidades, de querer sair de Teresina, de se sentir numa prisão, fora a ideia elitista de que nem todas as áreas da cidade são para todo mundo. Andar pelo Através é desvendar o lugar onde moramos.

“Eu odiava a cidade, mas continuava olhando somente para calçada quando passeava por ela. Hoje em dia reconheço problemáticas e enalteço qualidades, nossa cidade tem muitos pontos favoráveis, basta pararmos para ver. Durante a escrita do livro a observação foi fundamental, então isso moldou minha sensibilidade para com o redor. Eu precisava mergulhar na essência de Teresina, uma eterna questão alienígena urbana.” (Trecho da entrevista dada por Carlos César ao Geleia Total)

Uma cidade atravessada por suas lendas

Nessa jornada do primeiro livro, Cristina faz algumas amizades novas e encontra várias criaturas mágicas, e é com um tom bem humorado e crítico que nos deparamos com as releituras das lendas que habitam Teresina.

A Porca do Dente de Ouro tem a aparência de uma criança de 10 ou 11 anos. Loira e de cabelo chanel, ela se transforma em “uma mistura de menina com porco”. Vira um animal falante, mas com o mesmo penteado da forma humano.

O Rei Cristian – o Cabeça de Cuia – é descrito como “um homem com o corpo comum” exceto pela cabeça “enorme como um balão”. Ele usa uma camisa polo e calça de marca, fala com estrangeirismos e quer porque quer uma conta nas redes sociais. Really? “Eu adoraria ser um influencer!”.

De salto alto, vestido curto de um “matador vermelho tanto quanto seu batom”, a Num se pode do Através é uma “figura estonteante” e “glamourosa” com seu cigarro.

Devido aos postes com luz elétrica, ela não teria mais razões para se esticar e acender o cigarro no fogo dos lampiões, mas como essa é uma característica tão marcante da lenda que não podia ficar de fora, o romance resolve isso mostrando que ela cresce para pegar jornais que guarda nos galhos mais altos da Praça Saraiva. Informação é tudo.

O Pé de Garrafa também faz a sua aparição no livro. “A figura era um menino aparentemente comum, mãos comuns, cabeça comum, pernas comuns e… Pés que eram garrafas?” Literalmente garrafas de vidro. É um dos personagens mais cativantes do livro, apesar disso achei que ele ficou um pouco perdido mais para o final. A história dele é uma das várias pontas soltas que ficaram para se resolver (espero) nas continuações.

“Adaptar os personagens das lendas pra nossa realidade foi fácil, mas transformar conceitos abstratos de uma cidade em personalidades foi mais delicioso. Cada personagem representa uma variável de Teresina.” (Trecho da entrevista dada por Carlos César ao Geleia Total)

A Sociedade do Através é um livro de tom descontraído, narrativa rápida e cheio de pequenas críticas. Além disso, por ser uma fantasia piauiense coloca nas cenas coisas muito características da cidade de Teresina como os vendedores de chip gritando no centro, ou as pessoas distribuindo panfletos: “Ei, pegue um! Irmã Carolina ajuda a trazer o amor de volta e ainda reata relacionamentos!”.

A identificação que o livro gera é maravilhosa. Encarar as nossas lendas é o mesmo que olhar para um espelho e nos enxergarmos como sociedade, querendo ou não elas passam através da gente.

Foto de Carlos César, autor de A Sociedade do Através. Ele veste uma camisa preta, calça com estampa militar e tênis branco. Ele segura um microfone e está sentado em uma cadeira acolchoada vermelha.

Autor e obra

Carlos César é formado em moda pela UFPI e também tem um pé em quase todas artes, desde teatro até musica. É autor do livro “A sociedade do Através” (2019) e agora também responsável pela Graphic Novel “Os Androides de Areia” (2021).

“Eu esperava que o meu magnum opus fosse ‘Os Androides de Areia’ devido ao tempo que eu dedico criando diálogos sobre esse universo, mas o ‘Através’ veio primeiro e tudo bem. O livro 2 que continua a história de Cristina e seus amigos já está pronto e falta somente lançá-lo. Mas eu estou pesquisando uma data legal e um ‘momento’ dentro desse nosso caos diário pra esse nascimento.

O livro 2 definitivamente é uma experiência de ‘quase morte’. É o compilado de tudo que eu amo, histórias de terror esquisitas, histórias de interior e muito sertão. É bem mais aprofundado e ‘mortal’ que o primeiro. Os leitores vão se assustar um pouco quando notarem a “mágica” das relações do dia a dia entre pessoas de uma cidade pequena. Nesse livro introduzi uma grande questão que espero trabalhar nos próximos, estou muito ansioso!”

 

Quer conhecer mais obras do autor? Leia nosso texto sobre a HQ futurista Os Androides de Areia (clicando aqui).

Acompanhe o Carlos César/The Anthem C no Instagram.

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