Tangerinos, por Fontes Ibiapina

Mal os fins-d’água trancafiavam as porteira do inverno e o verde da chapada começava  a amarelecer, a meninada da minha laia ficava de ouvidos na escuta. E quando o búzio gemia no bojo da mata, a turma azeitava as canelas de alto abaixo que ia com tudo! Eu, que sempre fui o mais espoletado do bando, sempre ia mais na frente. Subíamos uma Arapiraca que ficava bem na beira da lagoa velha dos meus tempos. Daí a pouco o gadão estufava lá na embocadura da caatinga. Um aboiada das grandes. A coisa que eu mais achava interessante em cima do chão. Um bocado de homens tangendo ninguém sabia quantos bois. Os homens traziam aquela coisa como um surrão às costas, denominada de carocha. E eu sabia como eles se chamavam: tangerinos. Sabia até para que era que o tangerino trazia aquele feixe de palhas de palmeira no lombo: para ampará-lo da chuva. Quando um pé-d’água batia, ele abria a carocha por cima da cabeça, e pronto! Podia chover rio-d’água. Era como se estivesse dentro de casa.

  O guia vinha na frente soprando num búzio de chifre. Era um gemido bonito, o gemido do búzio. Um gemidão saudoso, chega sacolejava a alma da gente. E o gado acompanhando o guia. Pelos lados vinham tangerinos formando costaneiras. Atrás, outros formavam o que se chama coice. Às vezes, depois de tudo, vinham outros trazendo um magote de gado estropiado – o refugo.

   Eu estava por conhecer outra coisa mais bonita no mundo! Cansei de ver boiada que, de tão grande, vinha dividida em cinco, seis, ou até mais magotes. E cada um com os seus cem bois na batata e um búzio gemendo na frente. Que coisa bonita!… Ainda bem que o búzio daqui não acabava de gemer, gemia outro acolá, outro mais acolá, mais acolá mais outro. O último gemia tão longe, tão longe,…que parecia ser no fim do mundo. De tão sério e admirando em cima da Arapiraca, nem sequer pestanas eu batia. E o gado passando, de cabeça baixa, naquele passo ronceiro. Cada boi supimpa, que valia a pena! Cada bicho erado, chega os chifres viravam e reviravam. Gordos não eram não. Mas bem chancudos. Banzeiro do rojão puxado da viagem, mas todos de cabelo fino – a não ser o magote do refugo.

    Lá atrás vinha a condução. Uns sujeitos tangendo um bocado de burros com cargas. Aquelas cargas vinham atopetadas de mantimentos. De mantimentos de boca e de mais outros necessários. Traziam tudo. Eram os arreiros da boiada. E com a condução e seus arreiros vinha também o dono da gadama. Um sujeito importante encarapitado numa burrona de sela. E os arreios da burra do boiadeiro eram enfeitados de fivelas, passadores, estrelas e argolas doirados. Mas eu não tinha um tico de vontade de ser boiadeiro. O que eu queria ser era tangerino. Como devia ser boa aquela vida! Vinha tangendo o gado, ou na guia. Sentindo o cheiro do gado. Além de tudo, com aquele feixe de palhas nas costas. Como devia ser bom! A chuva caindo, a gente debaixo das palhinhas em forma de esteira. A chuva chovendo e a gente ali sem se molhar, parecendo um passarinho. Parecendo outra coisa que não criatura. Sim… Eu tinha uma vontade danada de ser tangerino. E não era só vontade. Fé também. Tinha fé em Deus que, um dia, um dia feliz, tangerino eu seria.

      Bom era quando tocava de sorte o boiadeiro se arranchar lá em casa, para pernoitar. O bichão atava uma redona de varandas no alpendre e se esparramava dentro da bitela.

O Papai encostava uma cadeira numa forquilha e se sentava. E travavam conversa até alta noite. Quem foi que disse que eu dormia?… Nem um pingo de cochilo! Ficava era ali mesmo, sentado no chão, escutando tudo. De queixo caído. Atento que não batia pestanas! Como eram bonitas aquelas histórias! Todo o tempo por cima do gado.

      Quase todo boiadeiro era de Goiás. Do Goiás moleque, como gostavam de dizer os tangerinos. Quando não, era porque era de Pastos Bons. Aquilo era que era terra de fortuna! Seria que no mundo havia lugar outro mais importante?! Havia nada! E quase toda boiada que passava ia para o Ceará. Aí eu me impressionava. – Por que era que o povo do Ceará comia tanta carne?! Só podia ser muita gente. Seria que houvesse lugar em cima do chão que tivesse mais gente que o Ceará? Havia nada! Seria que o Ceará tivesse mais gente que o resto do mundo inteiro?! Na certa!

    O boiadeiro conversando com o papai. E eu ali prestando bem atenção à conversa. E, vez por outra tirava disquisição com o máximo de interesse. Metia a minha colher enferrujada no meio da palestra:

    – Seu moço, tem muita fazenda em Goiás que amansassem bezerros?

    – Cem bezerros, meu santo, qualquer criador pé-rapa00do amansa. Lá para nós, fazenda de cem bezerros é uma amansaçãozinha chué. Fazenda propriamente dita é de duzentos e bote força. E não há quem conte os fazendeiros que têm cinco, seis, sete ou mais fazendas.

    – Eita terra pra ter cabra rico!

    – Você é quem pensa. Em Goiás, gado não significa riqueza. A pobreza de lá é maior que a daqui.

    Aquilo me entrava num ouvido e saía no outro. Eu tinha certeza que o povo dum lugar de tanto gado não podia ser pobre. Tinha certeza que tal conversa não passava de potocas de rico unha-de-fome que não queria dizer o quanto possuía. Conversa fiada. O diabo era que acreditava naquilo!

    Palestravam até meia-noite. E eu ali atento. Não saía do pé da palestra. Só ia dormir quando o papai entrava para o seu quarto. Dormir não! Me deitar. Na noite que havia boiadeiro lá em casa, quando eu ia pregar os olhos já a barra-do-dia estava para quebrar. Passava a noite pensando. Pensava naquelas história bonitas que o boiadeiro contava. Todo tempo por cima do gado! E de uma coisa eu estava mais do que certo: quando crescesse, entraria para aquela vida boa. Mas não era boiadeiro que queria ser. Tangerino. Eu queria ser tangerino para labutar com o gado mais de perto. Para sentir o cheiro do gado. Para passar o dia tangendo o gado e à noite com o gado no rodeador. Chegava mesmo a me sentir tangerino. A chuva caía. Eu abria aquela moqueca de palhas e ficava ali debaixo, quietinho. Que coisa boa! A chuva caindo e eu debaixo das palhas, sem me molhar. E o gadão pastando… Aquilo era que era ser vida! Não havia dúvida. Mesmo que o papai não quisesse, quando eu crescesse seria tangerino. Fazia assim: zarpava de casa às caladas da noite e me tocava no mundo para Goiás. Para o Goiás moleque!… Pronto! Quando menos ninguém esperasse, eu estufava naquela várzea, todo piriquitete, com um feixe de palhas nas costas e gemendo num búzio na frente duma boiada das grandes.

      Quando os fins-d’água chegavam, o trivial era o mesmo dos outros anos. Boiadas em mais boiadas passando. Mas, dentre todos os boiadeiros o mais batata era Canapu. Todo santo ano ele passava. E de todas as boiadas grandes, a mais grande era a sua. Canapu era rico mesmo de verdade. O sujeito que mais gado possuía no mundo. E o melhor era que o seu rancho lá em casa era mais do que na certa. Podia chegar cedão da tarde, ele tinha de dormir ali. E derribava lei com o Papai até os galos amiudarem! Mas eu nem ligava as conversas de Canapu. Era que o velho não deixava que ele mandasse seus tangerinos passarem a noite com o gado no rodeador. A boiada de Canapu dormia era na manga, no cercado-da-porta. Então os tangerinos vinham para o terreiro. Se sentavam. Faziam aquela roda. E entabulavam a conversa. Eu ia bem para o meio. E ficava assim escutando, como se aquelas conversas fossem as mais importantes do mundo. E lá isso era. Ninguém duvide, porque eram importantes mesmo. Aprendi muita coisa com eles. Anedotas, histórias, nomes feios, pulhas, ditados, brincadeiras. Foi com os tangerinos de Canapu que aprendi as principais tramóias que o menino taludo deve aprender para delas se utilizar quando virar homem de verdade. Depois, eu também soltava das minhas. Eles riam chega descangotavam! Que eu era um menino encapetado, lá isso era. Duvido que houvesse outro de  meu tempo que  fosse tão estrabulega. Pulhas, anedotas salgadas, nomes feios, eu sabia às carradas. Não me faltava rompante na cachola para sair com uma das minhas. Eu era um capeta em figura de gente!

    Quando os tangerinos de Canapu  se aboletavam lá em casa era um prazer para mim. Foram da maiores noites do mundo que conheci no mundo de minha infância.

    De todos, o mais gaiato era um tal de Chico Pezinho. Um sujeito patusco, cheio de mil e uma estripulias. Cabra encapetado por arte do diabo! Sabia histórias de sete cabeças, do arco-da-velha. Contava cada uma que a gente ficava de queixo caído.

     Pois bem, Chico Pezinho era guia. E sabia tocar búzio com perfeição. Eu mesmo estava por ver cabra em cima do chão soprar melhor um chifre. E o bom era que ele sabia que eu gostava de ouvir gemido de búzio. Mal se aproximavam, ainda vinham lá pelos limpos dos Resfriados, eu já sabia que se tratava duma boiada de Canapu. Não era por outra coisa não. Era porque lê fazia de propósito. Sentava a boca no chifre velho com toda sustância do peito. Era o que dava! Os gemidos saíam quase que emendados um ao outro. Assim como se fosse um gemido grande, sem começo e nem fim. Um só gemido, cortado aqui, ali e acolá, apenas para tomar fôlego. Daí a pouco o gadão apontava. E Chico Pezinho sempre vinha nem na frente da primeira maloca. Vinha gemendo no búzio. Gemendo. Gemendo… Eu ficava assim escutando, com aquela alegria por dentro. Sim, senhor… Chico Pezinho era mesmo meu amigo. Era só pra eu saber logo que era ele, que gemia tanto no búzio quando se aproximava. Era também porque sabia que eu gostava de ouvir gemido de búzio. Chico Pezinho era mesmo meu amigo de verdade.

   Certa vez ouvi alguém dizer como era que se fazia uma boiada arrancar. E fiquei com aquela estória na cachola. Quando ouvia um búzio gemer, antes de correr para a Arapiraca, eu corria era para o quarto da despensa. Levantava o texto do potinho de sal, enchia as mãos e ia diretinho ao fogão. Corria depois para a Arapiraca. Ia mais do que certo que a boiada arrancaria. Eu tinha mesmo vontade de ver uma boiada arrancar. Como devia ser bonito! Um bocado de bois correndo, numa disparada maluca, por cima de paus e pedras. Como devia ser interessante! Dizia o povo que eles iam sem tino, se arrebentando uns nos outros, em troncos de árvores, em cercas, pedras. Atravessando de supetão rios, lagoas, açudes e tudo o mais que encontravam na frente.

    Eu tinha vontade de ver cem ou mais bois atravessando aquela lagoa no maior alarido do mundo.

    Certo dia, Madrinha Bebela me surpreendeu botando sal no fogo. Correu e bateu com a língua para a Mamãe. Não foi nadam não foi nada… Mamãe me passou uns bons cocorotes com aqueles seus dedos finos de juntas duras que nem ferro! Mas nem por isso deixei de fazer das minhas quando ouvia um búzio gemer. Corria para o pote de sal. Do pote de sal para a trempes. Depois era que me botava para a Arapiraca.

   Passei um bocado de tempo impressionado. Culpado eu não havia sido. Mas, na certa se trata de castigo. Veio acontecer “justamente” com quem eu não queria que acontecesse. Aquilo só podia ser um espelho que Deus me mostrava.

    O búzio gemeu duas, três, quatro vezes, assim quase que espremendo um gemido no outro. Aí eu conheci – boiada de Canapu! E corri com os companheiros para a Arapiraca velha. Daí a pouco o gadão apontou. E ficamos esperando a gadama passar!

   Pois não é que a boiada arrancou! Nada de bonito como eu pensava. Chega fiquei me tremendo de medo! Com o coração em tempo de saltar pela boca. O gado vinha dividido não sei em quantas malocas. Ma pareceu que era assim como se uma combina. Que eles vinham de língua passada. A maloca da frente arrancou. As demais arrancaram também a um só tempo. Meteram os peitos na lagoa, que foi uma coisa doida! Parecia que a terra ia virando pelo avesso e a água toda se derramando nos ares. Atravessaram a lagoa e se atufaram na caatinga, lá no outro lado. Nunca vi zoada tão grande! Uma quebradeira de paus, um trovão estremecendo a terra! Tive mesmo a impressão que o mundo ia se acabar daquela vez.

   Os guias das outras malocas conseguiram se desviar. Mas o pobre do guia da maloca da frente… Nem gosto de me lembrar. Todo quebrado. Todo lambuzado de sangue misturado com terra. Era assim como se fosse uma coisa de carne sem osso. Vi quando os outros o pegaram e suspenderam-no. Só aquela coisa mole! E os olhos!?… Santa Mãe de Deus! Esbugalhados. Ave Maria! Nunca vi cena outra tão feia!

   Até o dia seguinte ninguém me disse nada acerca do assunto. Só depois que enterraram o corpo, só depois que juntaram o gado e foram-se embora, foi que fui chamado à razão:

   -Não minta, meu filho! Mentir é pecado. Você botou sal no fogo.

   -Botei não, Mamãe.

   -Botou…

   -Não botei. Juro como não botei.

   -Ora não botou!… Eu conheço a sua cara quando está negando.

   -Mamãe, pra falar a verdade, eu botava sal no fogo, quando ouvia um búzio gemer. Mas, quando era o búzio de Chico Pezinho, que eu conhecia de longe, não botava.

   -É melhor botar a carga abaixo e contar a história direito. Falar a verdade não merece castigo. Você botou sal no fogo para a boiada arrancar.

   -Juro como não botei. Chico Pezinho era meu amigo. Fiquei foi cortado de pena. Juro como não botei sal no fogo…

Ilustração: Adriano Lobão Aragão, 1997

0 Shares:
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like