O que eu aprendi – apreendo e aprendo – com a nudez?, por Alisson Carvalho

Parte 1

Antes de tudo que as pessoas revelam quem são por meio da negação. Que quando o corpo despido não representa um ideal de beleza padronizado a nudez se torna ofensiva, agride e desperta revolta.

A nudez na arte só é enaltecida se for importada. O valor da arte é questionado, a moral dos profissionais vilipendiada, os demônios internos dos retrógrados emergindo, enfim, as reações sintomáticas da época cuja própria história factual é colocada em xeque.

No país que mais mata LGBTT, falar de uma relação homoafetiva é por si só algo subversivo, portanto uma questão de urgência. E quando essa relação subverte a própria noção de heteronormatividade os tabus se fortalecem e os desconfortos emergem de uma cultura erguida sobre a base do cristianismo, machismo e patriarcado.

Quer dizer que há certa permissividade mesmo para homossexuais, desde que não desestruturem a ideia de família comercialmente difundida. Se um beijo ainda causa desconforto e ainda é um ato político, então sinto informar, mas você ainda não foi aceito. Entenda, não existe forma definida para o amor. Questionar a formatação das agremiações familiares, das relações afetivas, é desafinar o coro e se desviar daquilo que chamam de espírito de rebanho, é algo que incomoda.

O que eu aprendi com a nudez?

Aprendi a me despir das escamas de moralismo que ofuscam a racionalidade, aprendi que vão acusar sem verificar, que vão julgar sem conhecimento de causa, que vão inferir inverdades e aprendi que a anomia social não está no desnudo, mas em quem se veste demasiadamente temendo a austeridade.

Por pior que pareça, por mais que doa, é necessário suprimir as filosofias e ideologias pessoais em nome da liberdade geral. Quero dizer que sim, uma ou outra manifestação cultural deve ir de encontro aos seus ideais, ou seja, discordar do que você acredita, contudo isso é liberdade. Desconfiem de qualquer unanimidade principalmente se ela chegar costurada pelos fios do maniqueísmo.

Obviamente o artista e/ou formadores de opinião têm responsabilidades sociais diante do público. E, concomitantemente, podem assumir uma postura mais crítica inclusive fazendo da arte um objeto de provocação. Eu não demonizo nenhuma forma de expressão desde que não fira os direitos humanos e é importante reafirmar isso diante do crescimento de discursos ostensivos, violentos e moralistas.

Enfim, o que me apraz é pensar naquilo que agrega, que propõe novos olhares e que TAMBÉM desconstrói conceitos estabilizados, que estão “naturalizados”. Enquanto a nudez e a austeridade chocar significa que estamos longe de entender essa palavra chamada liberdade.

Foto da capa: Ana Cândida Carvalho

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