Um traço do patrimônio, por Lourrane Silva

Capela Nossa Senhora do Amparo, primeira construção
Foto do ano 2000, capela presente em uma praça da Zona Norte, uma das primeiras construções que se tem registro.

Pouco se conhece sobre a história do projeto urbano da capital do Piauí. Teresina não foi constituída a partir do traçado citadino advindo do desenho com traços barrocos, racionais, formalistas e retilíneos, elaborados por Mestre Isidoro, no ano de 1855, como conhecemos.

Com um desenho sem premissas básicas de topografia, em que o ideal de planificação é visível, a imagem que temos como base da criação da cidade, originária de uma política pombalina, muito utilizada nos séculos XII e XVIII, onde a cidade teria início a partir de uma centralidade, no caso de Teresina, a Praça Barão do Rio Branco, em frente à Igreja Matriz, Paróquia Nossa Senhora do Amparo, deixa invisível a verdadeira história do surgimento da cidade. Este projeto, que possui um equilíbrio visual entre cheios e vazios, sendo considerado o norte representativo do marco histórico da cidade, surgiu muito depois do início da mesma. Na região conhecida atualmente como Poti Velho, às margens do Rio Poti, foi onde a cidade nasceu e foi constituída.

Nesse local, residia uma comunidade indígena, os Potis. No período de apropriação dessa zona pelo então bandeirante Domingos Jorge Velho, diversos destes indígenas foram executados, enquanto muitos outros resolveram aliar-se ao bandeirante, fundando ali a Vila Poti. A transferência da cidade para o local que hoje consideramos o marco inicial da mesma deu-se no ano de 1851, com a construção da nova sede da Igreja Matriz.

Foi a partir de leituras feitas em uma coleção de Odilon Nunes, que, preocupado com a inexistência de recapitulações da história do Piauí, escreveu Pesquisas para a história do Piauí, de 2007, que encontrei algumas explicações sobre a criação de Teresina e a elaboração do plano urbano feito por Isidoro.

Em virtude das contínuas enchentes dos rios, afetando notadamente a vila do Poti, a Lei Provincial N.º 140, de 01 de dezembro de 1842, havia autorizado que a mesma fosse transferida para local que oferecesse mais segurança.

Nesse trecho, Odilon aponta, claramente, que a mudança da vila se deu pelos agravantes climáticos que assolavam as zonas lindeiras ao Rio Poti. Sendo assim, o traçado original da capital piauiense é formado pelos caminhos presentes do atual bairro do Poti Velho até o centro da cidade.

 

Foto: Vista Aérea da Zona Norte da cidade, 1991, por SDU Centro Norte.
Foto: Vista Aérea da Zona Norte da cidade, 1991, por SDU Centro Norte.
Foto: Vista Aérea da Zona Norte da cidade, 1991, por SDU Centro Norte.

 

Foto: Vista Aérea da Zona Norte da cidade, 1991, por SDU Centro Norte.

Acredito, ainda, que muitos dos moradores que negaram a possibilidade de mudança e de abandono de suas raízes permaneceram isolados nas raízes do Rio Poti, ocupando as edificações que lá existiam. Teresina possui uma característica visível de segregação, onde os mais ricos moravam no centro e tinham acesso a todos os equipamentos de infraestrutura presentes no município, perfil que se segue nos dias atuais, com o surgimento da zona leste, uma das principais centralidades da cidade. Porém, esta é uma conversa para outro momento.

Ressalto que Teresina é uma capital planejada puramente para substituir uma cidade já existente, e sua cronologia histórica possui marcas d’água, cor vermelho sangue, assistidas no palco do Nilo, que chamamos de Poti.

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