Crítica do livro “Asas de pedra”, de Nayara Fernandes, por Marciléia Ribeiro

Foto de André Ibiapina/Arquivo pessoal de Nayara Fernandes

É só poesia?

O que a poesia é capaz de fazer por você? Questione-se e responda para si mesmo(a). O que tem acalmado minha alma nesses dias tão hostis, em que a ignorância e a má política predominam, é descobrir que algumas pessoas se reconstroem com poesia. Te parece pouco? Apenas as coisas “pequenas” são grandes e apenas essas coisas importam. E claro, a poesia é grandiosa. A poesia é tão grande que está em tudo – no teu olhar sobre estas palavras, no apanhar dos objetos que caem, no vestir-se, e até nos trâmites burocráticos, aparentemente sem nenhuma beleza, que incorporam nosso dia a dia. A poesia é cotidiana, mas não é banal. É diária, mas não é trivial, é conquistável, mas não é medíocre. A poesia é para quem sabe ser!

Arquivo pessoal de Nayara Fernandes

Dividido em duas partes, a poética do livro “Asas de pedra”, de Nayara Fernandes, se constroe dentro de dois “momentos” – o da queda e o do voo, não necessariamente nessa ordem, não necessariamente com essas denominações. A primeira parte “Voos” se caracteriza com poesias em tons mais amenos, esperançosos, edificantes e rica em aforismos curtos e precisos, nos fazendo alcançar uma ressignificação inspiradora e contundente.

[(11)]

não olhe, pule

não pule, perdure

não perdure, percorra

não percorra, corra [pra dentro]

não corra [pra dentro], abra as portas

 

antes abra o peito

antes abra os preceitos

abra aspas: deixe-as se

abra asas: deixe-as ser

 

escancare-se

 

sem incômodos nos cômodos

enamore [tuas] sombras

sob a escuridão escrava

faça amor com [tua] alma. (p.22)

 

O sentido elevado e aprazível dessas palavras nos conduz à condição de continuidade e esperança, de mudança, de busca e de realização. Mas ressignificar um poema é tão subjetivo que cada espírito receberá de uma maneira diferente aquilo que uma poesia traz. A poesia nos permite, antes de qualquer coisa, devassar tudo aquilo que habita em nós, do mais raso ao mais profundo sentir. Cheio de significados, de metáforas, de possibilidades, de dor, e principalmente de luz, o livro “Asas de pedras” me permitiu desacelerar o olhar para mim mesma e, a partir de então, percebi as asas que também cresciam em mim, embora mais leves, mas um tanto presas.

[(15)]

[…] vou andar vou voar passarinhar o mundo

profunda profunda

nem que bebesse o mar encheria o que eu tenho de fundo […]  (p.26)

 

Já a segunda parte “Pedras” se estabelece num tom mais melancólico, ora dolorido, ora impulsivo, mas com a mesma fortaleza de quem chega onde quer chegar, de quem toca o que quer tocar. Ler poesia é um ato de reminiscência com a própria alma, porque aquilo que os verdadeiros poetas mais sabem fazer é enxergar, pois observar é a condição mais “fina” da escrita. Dessa maneira, a escrita de Nayara Fernandes canta a vida tocando em todos os seus pontos e abraçando com coerência a totalidade dos sentimentos humanos.

[(2)]

[…] vivo a felicidade fênix

[(re)feita] da dor do sangue

da cinza [(in)feliz]

da ferida frígida […] (p.43)

Dói! Porque embora a poesia esteja em tudo, nem de tudo se faz poesia. Mas a poética alivia, assepsia o machucado, estanca, sutura, cobre, até que sara. Poesia faz parte dessa “felicidade fênix” que a gente possui, porque a maior de todas as artes é a gente ter a capacidade de se refazer depois de tudo que a vida faz com a gente. É a partir disso que o que é palavra passa a ser sentimento – sangue, pés, mãos e braços – nos conduzindo para o caminho tortuoso e pomposo em que habita os nossos sonhos.

Foto de André Ibiapina/Arquivo pessoal de Nayara Fernandes

[(12)]

[…] [miúda sigo imensa]

gasta e dispersa do desgosto

de mastigar meu próprio coração […] (p.53)

Sim! É só poesia. Para mim, que só quero a palavra, que só quero a linguística rústica e crua das coisas, que é a poesia na sua mais perfeita forma, só quero a poesia. A poesia de tudo e em tudo. “Asas de pedra” nos faz repensar valores e conceitos subjetivos e universais de diversas maneiras e sob várias perspectivas. Entender um poema vai muito além de “saber ler o que o(a) autor(a) disse”, algo humanamente impossível, creio! Acredito que, independente do contexto em que o texto está inserido, ler poesia é um ato que começa de dentro para fora – é ressignificar em nós aquilo que habitou o lugar mais profundo de uma alma. Dessa forma, a poética de Nayara Fernandes nos instiga a algo maior do que apenas apreender a simples composição de versos e estrofes, é antes de tudo uma estrutura harmoniosa de palavras que nos permite abrir um pouco mais os olhos e o coração para o que está a nossa frente. É puramente uma questão de sentir o limiar da palavra. A poesia salva!

 

Por Marciléia Ribeiro

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