O Estalo de Lilly de Menezes, de Zidane Medeiros

Tendo sempre sido uma pessoa meio avulsa, Lilly de Menezes, no gênese de tudo, onde o Éden dos tendões se rompe, era fadada a ser uma folha de papel para desenhar, dessas mais fininhas que servem apenas para copiar algo por cima. Ela sentia-se livre, afinal, porque ninguém sabia coisa alguma sobre ela, enxergavam apenas a cópia a qual gostariam de riscar. Pois no primórdio isso era tudo que a deixava excitada e bem, bem nesse comecinho de que todos podem facilmente compreender quando fala-se sobre.

Já um pouco mais velha, isso acabou deixando-a triste sabe-se lá por quê, refletia sentada à uma mesinha de madeira disposta diante da poltrona onde ela se encontrava, os braços cruzados abaixo do peito coberto pelo renda de sua blusa. Pousou as mãos compridas das quais nunca gostou sobre a capa do livro fechado. Aquele livro tão velho quanto ela, porém não, não nesse sentido que pode ter parecido à você – Lilly de Menezes ainda iria completar quarenta e três anos dali a uns tantos meses. Não era velha, mas na verdade era, porque, assim como o livro repousado sob suas palmas, sentia haver vivido demais, demais mesmo, no sentido de estar extremamente cansada. O livro, com poucos anos de idade, fora emprestado à diversas pessoas que Lilly de Menezes finalmente entendeu, com o passar do tempo, que haviam sido negligentes, negligentes quanto a tudo, tudinho que você consiga imaginar, no entanto neste instante só lhe importou o livro. O coitado estava maltratado. Como ela, pensava, como eu.

Lilly de Menezes deixara de gostar de ser a cópia que se molda. Daí o que fizera? Ingênua, não, não, burra, fui uma tremenda idiota, emprestei figurinhas, cadernos, livros, livros e mais livros, emprestei minhas roupas, meu cabelo eternamente ralo, minha pele, meus lábios delgados, meu sangue – este escorrera dolorosamente das primeiras vezes, e muitas outras também, embora nem sempre acontecesse, enfim, enfim.

Quando veio dar-se conta, não havia nada de que não tivesse emprestado e houvessem devolvido-lhe em trapos sofríveis. Até sua massa cerebral fora jogada-lhe de volta aos farrapos feios e esticados. Mas ela os apanhara completamente nova e fresca. A questão é que, de repente (não, não sei se foi de repente, foi ou não? O olhar perdido por alguns segundos em direção à luz fraca), por causa do hábito de tanto doar, necessitou então de que algo lhe fosse também doado, por favor. Eis o pior dos clichês: amor. Ah, como ela diminuiu-se por essa coisa chamada amor, como entregou tudo o que tinha sobrado, seus trapos já velhos e esquecidos, embora ainda tão jovem se despisse inteira, o que tinha restado do que herdara de Adão, não o pomar povoado de árvores deliciosamente proibidas, não o pomo, isso não, mas as costelas, o ventre e a carne que dela provinha, terminavam sendo o maldito fruto – amém? – a ser degustado, devorado como na verdade as entranhas gordas de um leão-marinho.

Lilly de Menezes ergueu os olhos para a garrafa de vodca cheia em cima da mesa na parede em frente, a mesa onde costumava fazer os esboços de seu trabalho primeiro no papel comum, depois na tela do computador e por fim no papel-manteiga.

Um dia desses uma cliente tinha vindo e solicitado a palavra “Deus” seguida de uma coração coroado terrivelmente tosco, imagine, e a mulher perguntara-lhe:

“E o poder de Deus sobre tudo, qualquer coisa?”

E Lilly de Menezes soltara de automático:

“Se eu tivesse poder tão imenso quanto Deus e fizesse isso”, abrira os braços indicando tudo em volta no estúdio super iluminado, tudo para além das paredes que, em finas camadas, escondiam os filhotes mortos de cachorro apodrecendo lá fora, “eu ficaria entediada até a morte.”

A cliente zangara-se, falara: “Nunca devia ter ouvido tua mãe e vindo até aqui”, e partira de supetão como uma ventania forte e abafada. Lilly de Menezes lembrou de ter respirado fundo, erguido e soltado os ombros de uma vez, então pegara o celular e afundara na poltrona de cabeça baixa.

“Oi, meu amor.”, escutou do outro lado da linha.

“Mãe, a senhora mandou outra de suas amigas vir aqui?”

Silêncio.

“Escuta, eu sei que se preocupa, mas não precisa fazer isso. Eu tenho meus clientes, não tô passando fome.”

“Eu sei que não tá, querida, mas é que tem noite que nem consigo dormir, pensando, pensando, quantas pessoas não devem chegar aí e recusar seu trabalho, te ridicularizar por…”

“Eu preciso que você confie em mim quando digo que tá tudo indo bem. Você confia?”

“Confio.”

“Ótimo.”, e após uma despedida rápida, a conexão do celular as dividiu em quilômetros e quilômetros de distância.

Sabia que ela não confiava. E realmente Lilly de Menezes não mentia: podia não ter dezenas de clientes, mas existiam aqueles que gostavam sim do seu trabalho, por mais que entre eles e ela um abismo se abrisse. “Abismos de domingo à sábado”, poderia muito bem colocar na placa pendurada em sua porta. Riu e suspirou. Precisava beber.

Lembrou-se, caminhando o indicador ossudo pelos meandros da capa do livro, de que depois rasgara o papel-manteiga em quatro pedaços quase perfeitos. “Talvez seja isso o que Deus faz”, dissera consigo mesma, “Pois sem querer fiz quatro quadrados de papel quase perfeitos sem nenhum esforço e agora não faz mais sentido. Que tédio. Preciso tanto de uma bebida. Será que algo entorpece Deus dos próprios erros impulsivos? Porque se fui feita à sua imagem e semelhança, ele no fim é igual a mim, uma fonte de doação de vida e mais vida, impulsos absurdos, ações ridículas em tentativas tolas de acertar, e o sentimento de que o mundo inteiro de mim, Dele (Dela?) aguarda algo, tudo.”

Precisava mesmo beber? Perguntou em pensamento para a vodca brilhando como um cristal reluzente em meio à bagunça de seus papéis. E ela novamente encarou o livro amarrotado. Quanto marasmo, quanto cansaço!

A outra vez em que pensou sobre Deus foi quando veio-lhe um rapaz ao estúdio. Ele coçou a nuca, repetiu a velha pergunta que todos os mortais conscientes sempre repetiam, e foi justamente por isso que ela pensou em Deus; Deus, Deus, quem é o Senhor? Será que sou só eu que faço essa pergunta? Porque a mim, que vim de ti, indagam essa ladainha direto, os homo sapiens, sua maior glória, da esmagadora maioria uma minoria patética ainda, vez ou outra, esquiva-se, mas esquivar-se tornou-se também de uma chateação desmedida.

A esquiva nada lhe emprestava ou doava, nenhum fio de cabelo por entre seus dedos.

Então olhara para ele; ele aproximara-se de maneira insinuante. Ele havia solicitado um anjo, ela fizera o anjo, estava gravado na folha que segurava grotescamente com aquelas garras pálidas, o contraste perfeito, imaginava, lembrava-se ainda deslizando uma unha pela lombada do livro, as garras grosseiras, o anjo rabiscado, tão delicado, livre e nu, sem órgão sexual algum, que engraçado, curioso também, o fato do rapaz pedir um anjo sem sexo e no entanto fazer-lhe a pergunta, que reiterou de novo e de novo enquanto chegava calorosamente mais perto; calorosamente, e a pergunta saindo em um sussurro de carinho junto de seu rosto frio como uma pedra.

A realidade é que não esperava contraste tão maior que o anterior: o lábios quentes do rapaz encostando nos seus, uma mão aconchegante, com as costas cobertas ligeiramente por pelos escuros, abraçando o osso de sua face trêmula – pois ali não havia maçãs, jamais houvera…; enquanto a pergunta violenta repetia-se como em um vídeo defeituoso e irritante o qual não se consegue baixar o volume ou simplesmente pausar.

Mas ele queria doar-lhe algo, desejou assim que a viu, ou viu alguma coisa, ou achou ter visto decerto isso ou aquilo. Ela aceitou porque, porque, porque…por que?

Olhe só, o rapaz, sabe o que ele fez? Adentrou o pomar de árvores proibidas sem medo, não quis apenas as costelas e aquela carne envelhecida, lambeu com voracidade o pomo, a pontinha esponjosa e úmida da língua fez desenhos secretos ali, onde Lilly de Menezes precisava erguer os olhos para a lâmpada no teto, excitada e magoada. Foi como se, dentro do próprio Éden abandonado e sepulcral, fizessem amor um jovem sorrateiro da geração de Abel e a serpente esquálida, filha de Caim.

Geração de Abel, riu ela, amaldiçoando-se, quanta tolice, quanta sublimação, veja, Baudelaire, veja o que fez comigo, você e toda a sua poesia da mais troça miséria!

Então alguém provou de uma parte de mim de que ninguém provara antes, uma parte não que me define toda, mas indubitavelmente faz parte de quem sou, e é a parte da esquiva, da repulsa, do desgosto!

“Você é submissa?”, ele perguntou.

“Não sei”, ela murmurou.

Ele a engasgou de uma vez.

Lembra-se, Lilly de Menezes, de que, após todo aquele mundo se abrir em frente ao espelho do estúdio, você olhou para mim – Lilly de Menezes – e percebeu que eu estava sorrindo ao passo em que uma lágrima acariciava os ossos protuberantes das minhas feições? É que, ao invés de receber, você apenas achou que recebeu, mas na realidade deu todo o resto, até o que antes era intocável, fora, pois, violado por um andarilho curioso… Violado para, para o andarilho curioso, você fez isso comigo, você deixou que levassem até o que era secretamente virgem.

Ele quis saber, levantando-se, subindo as calças, se era por prazer que ela chorava, e ela rindo assentira, permanecendo deitada como uma senhora enferma.

Ao menos a pergunta não foi mais repetida, disse ela, contentando-se com o básico, é o pouco que me seduz, não é? Porém descobrira que o muito também podia seduzi-la logo que o rapaz a adentrou e descobriu a menina encolhida no fundo da atmosfera gotejante e fria. Então é isso o que você entende por “muito”, esse adentrar grosseiro, essa lambida escaldante e áspera, passou a mão pelos cabelos, fechou os olhos, vamos pensar sobre atrocidades, ele nunca mais voltou, nem mesmo pelo anjo ou pela agulha, o anjo ficou para trás, caiu, caiu, a agulha foi substituída pela outra, a escondida, a que o picou como ele muito claramente solicitara, mas nem mesmo por esta ele retornou. O bom também é que ela já esperava pela não vinda, já dera as boas-vindas para a ausência da chegada.

Sim, mas o atroz, vamos falar do atroz, aquele que me fura com minha própria agulha, me deixa marcas vermelhas e cicatrizes até bonitinhas, aquele que me fez jogar meus vestidos no lixo, o que me ama à sua maneira, que inunda-me toda, afoga-me no seu amor colossal, a nuvem brutal que eleva-se alargada e fortuita por conta das alterações climáticas causadas pelos homens, por ti! aproximando-se para encher os rios e os transbordar, desestabilizar a fauna e a flora, os peixes são jogados para fora e as plantas morrem encharcadas. Sim, é de ti que falo, é de ti, quem mais poderia ser? Você encaixa-se tão bem, por mais que negue, negue amar assim…

Lilly de Menezes recordava-se bem dele, dirigia-se a sua imagem distorcida através da transparência da garrafa de vodca. O aliado, o parceiro. Dissera-lhe no ouvido, assim que a vira pela primeira vez: “Não vou só te emprestar ou doar alguma coisa, vou te encher dum mundo inteiro”, porém a música estava muito alta e as pessoas gritavam todas bêbadas em volta de ambos, e se Lilly de Menezes houvesse escutado a frase correta, que fora: “vou te encher do meu mundo inteiro”, talvez minimamente franzisse o cenho e comprimisse os lábios pobres ao invés de sorrir – exibira os dentes tortos para os jogos de luzes e as sombras.

Você deve conhecer essa história lamentavelmente genérica: quem poderia amar um ser tão ridículo senão ele, somente ele? E no fundo o homem sempre desejou estar ao lado de uma peça de chaveiro que sacudia e sacudia dentro de seus bolsos asfixiantes, entretanto, a pior das descobertas feitas ao longo dos anos foi que o pomar de Lilly de Menezes, os detalhes mais irrisórios deixados por Adão, só o agradaram porque ele, de fato, só enxergava o pó da Terra ali materializado o qual renunciara – de propósito, imagine! – à autoridade concedida para pouquíssimos, e, logo ao contrário, optara, optara, optara! Por ser a adjutora. Por tal razão o homem havia tentado convencê-la de seu erro, por tal razão tinha jogado vários vestidos seus no lixo e ateado fogo, no máximo um short simples e uma camiseta sem alcinhas, claro, e pelos protestos sutis de Lilly de Menezes ele contraditoriamente a espancava, gritando: “Só quero te proteger, só quero te proteger, por que é tão difícil aceitar isso?”.

Houve até aquele dia em que, caída no sofá, limpara o rastro sanguinolento e fresco do nariz até o queixo e rira, gaguejando: “Você apanhou um pássaro com as asas quebradas afogando-se num esgoto e acreditou mesmo que prende-lo numa gaiola o curaria e o protegeria dos gaviões à espreita no céu”, depois cuspiu o sangue nos calçados sociais dele, “Deixa eu te dar uma notícia, garotão: você é a porra do mais atroz dos gaviões.”

Ela abria o estúdio extremamente mais magra do que o habitual – uma antiga colega de tempos que Lilly de Menezes fizera questão de esquecer cruzou com ela em plena Frei Serafim, reconheceu-a e elogiou aquele corpo esbelto e a brancura daquelas pernas, e Lilly de Menezes gritou-lhe ao risos, apressando os passos para não ser atropelada e também para fugir de tal pessoa: “Obrigada, é que estou morrendo!” – os olhos já tão pequenos em sua natureza, fundos e escuros, quase desaparecendo, os lábios sem cor perdidos no rosto branco como porcelana velha. Do quarto, que por infelicidade ficava do outro lado da parede do aposento de trabalho, vinham os roncos altos do homem, que dormia o dia inteiro. Às vezes, nos primeiros instantes em que acionava o mecanismo que fazia a agulha começar a trabalhar, o homem acordava e gritava, socando a parede: “Eu quero dormir!”. Ela já não se esforçava para disfarçar os primeiros desconfortos.

No entanto, no decorrer das horas, entre o olhar antes preocupado e depois por qualquer razão entorpecido dos clientes e a sonoridade do mecanismo, ela perdia-se nos riscos delicados e delimitados os quais ia traçando cuidadosamente. Nos segundos em que passo só comigo e com os sons de minhas paixões solitárias salvo-me de todo o resto. Os ruídos de judiaria logo vão tornando-se lembranças borradas de um mundo bem longe deste.

Não, nada de beber agora, agorinha não, quiçá no próximo minuto, por enquanto vou só limpar a mente e ser eu, ser só eu, esvaziar qualquer outro de dentro de mim, deixar que escorram todos através da agonia que exala d’eu para o mundo como os gases poluídos saindo pelo escapamento de um carro. E dessa forma tenho a percepção – não uma percepção surpresa, diria até que apática – de que me faz querer chorar estar só comigo, de tão, tão, tão acostumada a estar contigo, percebe? Estar só comigo é estar no meio de um espaço noturno sem estrelas que se expande ao infinito, e diminuo, vou diminuindo até escapulir… Escapulir para onde? Aí é que está, meu amor…

Lá na origem havia lugares para onde escapulia e, nesses lugares, nadava em si mesma. Com o tempo, Lilly de Menezes desaprendeu este nado, começou a afogar-se, daí aprendeu a nadar nos outros, depois, quando expulsa dos outros de um modo ou de outro, então na amargura afetuosa do álcool, que delícia fulminante, não? Engraçado imaginar que o álcool passou a entusiasmar a criança que outrora só entusiasmava-se assim com barras de chocolate e contos de fadas ilustrados, pelo menos até onde lembrava-se da infância preta e branca.

Seu olhar mais uma vez perdeu-se no aposento mal iluminado a sua volta. Então, abaixo da mesa onde localizava-se uma lixeira, viu, estranhamente sobressaltada, uma barra de chocolate a qual uma cliente, antes de ter sua pele visualizada por Lilly de Menezes como uma tela em branco, jogara ali, afundando-a com bastante resolução, por haver notado que o produto passara da validade um dia, um dia apenas. Lilly de Menezes encarou a embalagem escura e lacrada, depois, alçando a vista, a vodca, e, em seguida, baixou os olhos novamente para o livro surrado sob suas mãos de donzela defeituosa, ex-noiva ensanguentada.

Riu até soluçar e professou, fazendo o sinal da cruz na fronte, no peito e nos ombros, cravando a vista penosa em direção aquela lâmpada que, antiga, dava os últimos sinais de vida: “Em nome do Chocolate, da Vodca e dos Contos de Fadas.”

 

Arte: Luciana Amorim (Instagram: @lu_tatuagens)

Edição de Imagem: Junior Magrafil (Instagram: @magrafil)

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