Não deixe para o próximo ano o que você pode fazer hoje, por Walter Silva

Arquivos de William Sousa

Naquela terça-feira eu tinha acordado tarde, mas na intenção de sair com calma para não me estressar, cumpri tranquilamente minha rotina antes de chegar ao trabalho.

Estava em contagem regressiva para o ano-novo. E tudo naquela semana estava bem calmo…

Cheguei ao ponto de ônibus depois de uma caminhada breve e logo ali começava algo que marcaria meu arrependimento até os primeiros dias de 2022.

A moça alta, magra, cabelos cacheados, uma pele cor de caramelo, óculos de aros finos e arredondados, e os olhos, que mais tarde notei, de cor clara, chamava minha atenção. Ela vestia, assim como em outras vezes que a vi, um vestido com estampas floridas, que quase se arrasta no chão, e que revelava um corpo magro e com curvas delicadas.

Observava ela com frequência em alguns dias aguardando o ônibus. Tinha sempre um encantamento, mas naquele dia algo dentro de mim se revelou depois de muito tempo. Era como se eu precisasse estar com ela em mais outros momentos… eu tinha que falar com ela e explicar o que eu estava sentindo dentro de mim.

Ela estava a menos de três passos de mim, mas estava congelado sem saber como iniciar um assunto com ela. Na minha consciência, eu precisava tomar a iniciativa, porém estava com medo de parecer um depravado. Como que eu digo para uma moça, que eu nem sei o nome dela, que eu estava sentindo coisas estranhas por ela???

Então me concentrei, respirei e fiquei esperando a hora correta.

Nesse meio tempo um ônibus passou. Por minha sorte, ela embarcou naquele que também eu entraria. Logo depois dela passar pela catraca, seguido por três ou cinco pessoas, embarquei. Percebi que ela já ocupara um dos assentos logo a frente ao lado de outro passageiro que já estava no ônibus.

Eu fui para trás. Precisava observar ela a distância enquanto continuava a pensar em como iria proceder.

Depois de alguns minutos o passageiro que estava ao lado dela se levantou e desembarcava. Se Deus já me deu várias “deixas”, com certeza era mais uma desta vez. Chegou a minha hora. Rapidamente fui ocupar a vaga.

A partir daquele momento tentava ser natural, mas eu sentia que a tensão estava no ar. Observava de esguelha o rosto dela… em outros dois momentos senti que ela fez a mesma coisa. Então, tirei meu smartphone da mochila e abri em um artigo qualquer de um site de notícias e fingia ler… minhas pernas estavam frenéticas, minhas mãos nervosas, minha concentração estava péssima… guardei o smartphone de novo.

Estava quase chegando na hora de eu descer eu não tinha feito nada! Eu então parei para pensar: será se esse clima estranho que estou sentindo é só uma ilusão. Parei para observar os sinais.

Ela estava com as mãos impacientes, a visão dela parecia nervosa, as pernas também balançando. Porque ela estaria impaciente??? Uma explicação plausível viria.

Senti um dedo muito delicado cutucar minha perna. Era a primeira reação dela. Graças a meu bom Deus ela teria tomado a iniciativa. Eu fiquei congelado. Era agora ou nunca.

Me perguntou a hora que informava no meu celular. Respondi e ela agradeceu! Tudo parecia tranquilo, mas meu coração palpitava. Eu tinha que dar continuidade ao papo. Mas demorou alguns minutos, que para mim pareceram horas, para eu perguntar se ela estava atrasada. Ela respondeu positivamente.

Estava trêmulo quando ela se levantou para desembarcar. Ela até se despediu com um ‘tchau’. Logo depois percebi que ela desembarcaria no mesmo lugar que eu também. Ela desceu do ônibus rapidamente e eu estava ainda congelado num misto de medo, decepção e encantamento.

Caminhei rápido, depois de um tempo percebi que ela estava atrás de mim. Pensei que não seria prudente abordar ela para falar depois dela dizer que estava atrasada então segui meu caminho.

Demorou pouco menos de uma hora para eu perceber o que tinha ocorrido. Tinha talvez perdido uma grande oportunidade de conhecer ela. Fiquei muito triste e arrependido pelo que eu fiz, aliás, pelo que deixei de fazer.

Estava disposto a resolver isso antes do fim do ano, mas nos dias seguintes eu não consegui reencontra-la. O arrependimento foi minha companhia até os primeiros dias do ano. Que ódio estava sentindo de mim mesmo! Por enquanto a única coisa que tenho dela é a memória de como ela é e as lembranças que me amargam.

Um aprendizado tiro disso tudo: eu ganhei mais 365 dias para eu tentar. A dor de não ter conseguido o que eu queria é menos sofrido que o arrependimento de não ter tentado.

 

Walter Silva é o pseudônimo do jornalista e autor deste conto.

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