A beleza da periferia expressa pelas mãos de Kyra

Foto: José Ailson Nascimento

A arte visual vai muito além do que telas e murais, a prova disso é a ressignificação da maquiagem, cada componente usado no rosto pensado para replicar seus sentimentos naquele momento. Do romântico, melancólico ao alegórico e clean (make básica para ir comprar pão), uma variedade de sensações para pôr na cara… Literalmente. 

Essa arte pode ser vista com desprezo em meios academicistas, assim como a arte expressada no subúrbio das cidades, mas o que é a opinião de pessoas de vocabulários cultos e estudiosos da área perto da grande massa? Para quem julga que a periferia não tem beleza, pois ela tem nome e possui endereço!

Foto: José Ailson Nascimento

Nome Completo: Kyra Vlad Escobar da Silva
Descrição: Maquiadora
Idade: 21 anos, libriana
Local de Nascimento: Teresinense da gema!
Escrito por: Blu Messias

“Eu sempre vivi rodeada por mulheres da minha família, brincava com minhas primas em pintar a cara das bonecas… Isso e outras coisas me fizeram adentrar no mundo da maquiagem. Ademais, fui crescendo e me aventurando no mundo das Drag Queens, eu queria aprender mais sobre esse universo que traz a liberdade para nos expressar, principalmente colocar nossa feminilidade para fora. Isso colaborou para saber sobre as diferentes tonalidades de pele, pois não me conformava em uma base não ficar de acordo com meu tom. Por isso, gostava de pesquisar para poder me encontrar”, relata a maquiadora.

As primeiras “influencers” que a blogueira seguiu na vida!

“Minha primeira referência em que me espelhava na maquiagem era meu tio, ele fazia drag… Gostava de se montar para o carnaval, eu ficava admirada, observando a construção de Chana Drummond… Tenho uma prima que possui a mesma paixão pela maquiagem e tínhamos o hábito de se maquiar e colocar os papos em dias, algo bem típico de canais do youtube, quando as blogueiras fazem colabs“,afirma.

Quando a pessoa quer seguir a carreira de influencer, a família é a primeira a criticar, a fazer palpites desnecessários sobre seu futuro, no caso da Kyra, não é diferente, mas torna-se privilegiada por ter o apoio de sua mãe, e ainda mais importante, ajudou na sua transição de gênero. “Até mesmo quando decidi ser drag minha mãe foi a primeira a comprar uma peruca, me deu a minha primeira calcinha, vestido, salto, um kit de maquiagem completo. Ela sempre esteve ao meu lado em qualquer decisão, enquanto o resto da família sempre ‘atirava pedras’ em mim, por isso agradeço pela mãe que tenho”, acrescenta.

Fotografia: José Ailson Nascimento

“Ergo a cabeça e sigo meu caminho’’

Algo raro na atualidade, quando reparamos com dados de diversas pessoas trans que são expulsas de casa após se assumir quem são e o mais agravante, sermos o país que mais mata LGBTQIA + no mundo, enfatizando a sigla “T”, marginalizada até mesmo dentro da comunidade. “No começo eu ficava chateada com o que as pessoas ao meu redor diziam, antes eu tinha uma preocupação em fazer uma make pesada para esconder meus traços, assim, não falariam mal da minha aparência, atualmente, não ligo mais para o que vão falar, eu simplesmente me aceitei como sou e vou ser o que quero ser”, relata.

Foto: José Ailson Nascimento

Quem vê close não vê corre!

Kyra trabalha como maquiadora e também com seus ofícios de sua religião, a umbanda, mas conta que a procura de seus serviços está difícil, sua clientela são pessoas do convívio, parentes e amigues. “As vezes eu nem cobro pelo serviço, faço pelo prazer de maquiar”. Em uma de suas artes postadas no Instagram demorou aproximadamente 3 horas para ficar pronta. “Eu pintei minha cara inteira de vermelho, não tinha tinta para rosto, então usei batom quebrado, passei um pó e fui finalizando para fazer contornos e afins”, afirma a blogueira.

Kyra – Acervo pessoal – instagram

Os sonhos de Kyra para o futuro é trazer mais conteúdo nas redes sociais, a blogueira pretende iniciar sua carreira no tik tok, que vem divulgando cada vez mais novos talentos e chegando a diversos públicos. “Quero fazer mais maquiagens artísticas, mas não 100% adentrando ao mundo Drag, pois eu não curto especificar como ‘cada make é para uma coisa’, só quero fazer o que sentir vontade”, afirma. Por mais que exista barreiras nesse mundo tão racista, transfóbico, patriarcal e elitista, Kyra consegue estar no lugar onde ela quiser, mostra que apesar de ter comentários tóxicos quando passa na rua, ela cumprimenta com educação e fineza, o que molda o comportamento de quem possui preconceito. Ademais, ela sabe que se continuar nesse rumo, uma hora ela chega onde precisa estar, fama e dinheiro? é old! Mas o reconhecimento de seu trabalho é o que precisa ficar marcado para gerar bons frutos e se destacar no mundo da beleza bastante concorrido. Diante disso, ser uma mulher trans, preta e periférica é um ato de Resistência!

Kyra – Acervo pessoal – instagram

 

Foto: José Ailson Nascimento

Contatos

Siga a Kyra no Instagram: @Kyrav1

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Última atualização: 24/01/2022

 

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