MEMÓRIAS EM GRAFEMAS*, por Valéria Lima

Foto: Valéria Lima
Nesse mundão de terras férteis
No meu interior frutífero
Eu mesma aguardava a hora de ir
Eram férias?
Fazia alegria da gente
Terra boa e quente
Muito coco para apiloar
E molhar o matutino cuscuz
Era bom demais, Jesus
Minha vó Ester
Fazendo o café
Meu avô pisando milho iguaria
Pra fazer tal “bolo” no pano
Não podia faltar que a gente queria
Os netos sem obrigação nenhuma
Correndo e seguindo para o riacho
Naquele duro chão correria
Eu mexendo no fogo, era o cão…
Agora deixa eu te contar, meu irmão
Minha avó Ester tem medo da morte
“Quer virar pedra de fogo, Ester?”.
Caçoava sempre meu vô Raimundo
Ele, que belo dia lhe deu último abraço
Como que dizia, e disse:
“Vou partir que eu sou passarinho.
Você fica aí que eu vou embora”.
Dois dias depois, após gole de leite
Deu último suspiro em deleite
Sem nenhuma dor, foi-se feliz
E a vó calou-se de tristeza e dor
Acamada terá destino que quis
Uma grandiosa rocha lapidada de amor
Com a memória acesa em vigor
E os netos e bisnetos criados
No mundo lembrando do labor
Que mais parecia travessuras
Eram os melhores dias de ternura
No meu interior de Palmeirais
Uma vida sentida de candura
* Esse poema foi escrito por mim quando em uma cafeteria com a amiga Lia Lima, ela me narrava sobre as férias de infância no interior de Palmeirais, município do Piauí. Antes que chegasse o café e outros acepipes, eu transcrevia poeticamente suas felizes idas à casa dos avós. Sem esfriar a bebida, li para a amiga meu poema ainda quentinho, que o ouvia de olhos fechados. Eu, mais centrada na leitura, ao terminar avistei as comedidas lágrimas em seu rosto.
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