Balada Litherária Piauiense 2020 será online e terá como homenageado o cineasta Douglas Machado

O evento, que acontece desde 2006, terá sua primeira experiência em plataformas de streaming. A homenageada nacional é a escritora paulista Geni Guimarães

“Chega de long neck quente e cara! Vamos fazer uma festa em que não falte cerveja gelada!”. Foi a partir desta provocação direcionada a Samuel Seibel (dono da Livraria da Vila) na ocasião da Feira Literária de Paraty, a FLIP, que o consagrado autor pernambucano Marcelino Freire começou a desenhar os primeiros ébrios pensamentos do que viria a ser a Balada Literária, essa festa dedicada à literatura nacional que coloca cânones e contemporâneos na mesma mesa e bebendo no mesmo copo. 

O insight hedonista veio numa mesa de bar quando a falta de cerveja anunciou o fim da festa. E foi no bairro paulistano da Vila Madalena, onde o autor mora há mais de 20 anos, que o evento realizou sua primeira edição. De 2006 pra cá, 15 edições depois, a balada cresceu e criou braços na Bahia, sob a curadoria do poeta Nelson Maca e no Piauí, aos cuidados do professor e escritor Wellington Soares, onde chegamos à 4.ª edição homenageando o premiado e reconhecido cineasta Douglas Machado. 

É a primeira vez que o evento acontecerá 100% virtual devido à pandemia do novo coronavírus, o que também impactará em seu alcance. Pelo YouTube, qualquer pessoa de qualquer lugar poderá acompanhar as mesas e interagir com os participantes. A edição deste ano contará com nomes como a atriz Zezé Mota, a  filósofa Márcia Tiburi e o roteirista Marçal Aquino. 

Para acompanhar o evento, as mesas e as apresentações musicais, basta curtir as redes sociais e se inscrever no canal do YouTube (ao fim da matéria, deixaremos os links). Confira a programação completa da Balada Litherária 2020 e uma entrevista exclusiva com Douglas Machado feita pelo poeta e músico Thiago E. 

PROGRAMAÇÃO (24/08 – 25/08)

Dia 24/08 (Segunda-feira)

9h “A cor da ternura na poesia negra”,

Uma conversa afetiva com a poeta GENI GUIMARÃES, mediada por HARLON LACERDA, diretor da Uespi/Campus Oeiras, SÉRGIA A, poeta e contista, e NELSON MACA, poeta e curador da Balada Literária em Salvador

15h “A cultura ainda pulsa em tempos de ódio e fascismo”,

Um papo com a filósofa MÁRCIA TIBURI, mediado por FELICIANO BEZERRA, professor do curso de Letras/Uespi, FABÍOLA LEMOS, professora de Filosofia e Sociologia do Ensino Médio, e WELLINGTON SOARES, escritor e curador da Balada Literária no Piauí

19h “20 anos de Cipriano e uma vida de cinema”,

Uma troca de ideias com o cineasta piauiense DOUGLAS MACHADO, sob mediação de THIAGO E, poeta e músico, e ANA REGINA REGO, professora do curso de Jornalismo/Ufpi, recepcionados musicalmente por MOISÉS CHAVES

Dia 25/08 (Terça-feira)

9h “Cinema piauiense: produções e desafios”,

Um diálogo franco com DANILO CARVALHO, artista visual e cineasta, KARLA HOLANDA, professora da UFF e cineasta, JUSCELINO RIBEIRO, jornalista e cineasta, sob coordenação de ANDRÉ GONÇALVES, publicitário e editor da Revestrés

15h “Teremos que repensar a forma de fazer cinema daqui pra frente”,

Uma viagem pelo futuro do cinema brasileiro com MARÇAL AQUINO, escritor e roteirista, e WILSON FREIRE, escritor e diretor, pautada por ARISTIDES OLIVEIRA, editor da Acrobata e pesquisador, e ITHALO FURTADO, contista e poeta

19h “A imagem do cinema brasileiro”,

Uma prosa com ZEZÉ MOTTA, atriz e cantora, mediada pelo cineasta DOUGLAS MACHADO, homenageado local da Balada Literária e pelo contista WELLINGTON SOARES, curador da Balada no Piauí, contando com apresentação de MARCELINO FREIRE, idealizador e organizador da Balada nacional, recepcionados musicalmente por BIA E OS BECKS

Nas lives durante o dia, manhã e tarde, teremos componentes do GRUPO DE TEATRO DA UESPI recitando textos da poeta GENI GUIMARÃES, homenageada nacional do evento

ENTREVISTA COM DOUGLAS MACHADO, HOMENAGEADO PIAUIENSE DA BALADA 2020

O texto e a entrevista que seguem foram feitos pelo músico e poeta teresinense Thiago E

Artífice  do  silêncio.  Trabalhador  da  palavra. Operário diário do cinema. Curador de mostras. Documentarista. Roteirista. Editor de revistas e livros. Ficcionista.  Quantas personas cabem em Douglas Machado? Inúmeras. Em quantas imagens podemos vê-lo em público? Para alguém que faz da vida um permanente diálogo com várias artes, fica impossível saber. Registro apenas que é teresinense nascido em 1964. Seus trabalhos no audiovisual começaram em 1987, na TVE-PI. Rea- lizou produções em diferentes regiões do Brasil, na Suécia e na Espanha.

Como sócio da TRINCA FILMES LTDA., produtora que trabalha com Cinema e Literatura, dando especial atenção ao Nordeste do Brasil e ao Ser- tão, dirigiu diversos filmes: Ensaios íntimos e imperfeitos (2015-2018); Poesia na madeira (2014); Wilson Martins – A consciência da crítica (2012); Na estrada com Zé Limeira (2011), João (2010); Al- berto da Costa e Silva – O retorno do filho (2009); Luiz Antonio de Assis Brasil – O códice e o cinzel (2007); Um corpo subterrâneo (2006); O Sertãomundo de Suassuna (2003); H. Dobal – Um homem particular (2002); Cipriano (2001); Hora Zero – El Salvador depois da guerra (1994), dentre outros.

Douglas Machado também é editor da Hoblicua, uma revista anual de literatura, e dos selos Agarazul e meiomilheiro, publicando poesia, ensaio e romance. Como proceder com um cidadão inquieto assim? Alumbrador de público. Estudante. Formador de plateia. Professor   Registro, enfim, que é preciso ouvi-lo.

Thiago E: Douglas, como começou sua paixão por cinema? E quando o audiovisual virou trabalho e razão de ser?

Douglas: Até  onde  minha  memória  vai,  começou quando eu era ainda garoto. Por vezes os meus pais deixavam a mim e ao meu irmão mais velho (Marden Machado, crítico de cinema) no Cine Royal enquanto eles trabalhavam. O cinema, portanto, se tornou nosso parceiro constante. Inclusive, assistíamos o mesmo filme repetidas vezes. Cheguei a acreditar que seria esta a única maneira de assistir filmes (ainda hoje mantenho este hábito e vejo e revejo a mesma obra diversas vezes). Eis o começo! Garanto em dizer, também, que os filmes terminaram por nos formar enquanto cidadãos. A paixão começou desta maneira. Tem uma base sólida e inabalável. Sobre o audiovisual ter virado trabalho, parte integral de minha vida enquanto profissional, o crédito vai, sobretudo, para o Chaim Litewski. Ele estava, juntamente com o José Carlos Asbeg, à frente da TV Antares no final da década de 1980. Chaim sempre acreditou que eu poderia trilhar este caminho como profissão. Até mais do que eu mesmo. Em 1988, através dele, dirigi pela primeira vez um programa de TV. Tratava-se do Animando – uma espécie de coletânea de vídeoclips,  animações,  bastidores de cinema, etc, com 30 minutos de duração (de segunda à sexta, às 19h). Posso dizer que este foi o passo inicial do meu trabalho.

 

Thiago E: Você já dirigiu documentários sobre os poetas H. Dobal, Ariano Suassuna, Alberto Da Costa e Silva, Zé Limeira etc. Fala um pouco sobre teu amor à poesia.

A poesia tem um diálogo orgânico com o Ci- nema, desde o seu nascimento. Eis a base deste amor. Indico aqui a leitura do livro Esculpir o tempo, de Andrei Tarkovsky. Está tudo neste livro, toda a possibilidade de explicar este sentimento.

 

Thiago E: Além de cineasta, você é curador de mostras e responsável pela programação do Cinemas Teresina. Quais as alegrias e dificuldades de trabalhar com cinema no Piauí?

Vamos deixar as dificuldades de lado? Sempre foi difícil trabalhar com cinema, seja no Piauí, no Brasil ou mesmo em grande parte do nosso planeta… redondo, por sinal. Ademais, te respondo em meio a esta pandemia da Covid-19, portanto, tudo que tínhamos antes nos parece mais fácil e mais possível se comparado ao cenário atual. Focando unicamente no trabalho como curador e programador do Cinemas Teresina, posso dizer que minha maior alegria é proporcionar um leque amplo de cinematografias que possam deixar nosso espectador num estado de alumbramento, compreende? Além de dividir conhecimento sobre a Sétima Arte através das sessões com debate, onde o espectador pode conversar diretamente com os cineastas, elenco e produtores; participar das masters classes com profissionais de ponta no mercado cinematográfico; assistir mostras e retrospectivas que ampliam o entendimento da produção audiovisual. Cinema, para mim, não deve se limitar a exibição do catálogo de lançamentos, unicamente. Tem que ir mais além, abraçar o espectador em sua inteireza. Sorte minha trabalhar com uma equipe e uma diretoria que compartilha dos mesmos pensamentos. Estamos, todos juntos, construindo nossa identidade aqui no Cinemas Teresina.

 

Thiago E: Você também é um dos editores da Hoblicua editora, publicando lindos livros, sobretudo, de poesia. Comenta sobre os autores já editados por vocês e quais os próximos lançamentos.

Publicamos especiais centrando na obra de Alberto da Costa e Silva, Ariano Suassuna, Paulo Henriques Britto, Walmir Ayala bem como livros de poesia, ensaios e prosa. Dos livros de poesia, destaco “Tantum ergo”, do teresinense George Anselmo Isidoro. Autor pouco conhecido, mas com uma obra que nos chamou a atenção desde sempre. Tampouco devo esquecer “Pluvioso”, do escocês John Burnside e o “Poemas”, uma seleção de poesias do inglês John Clare – com organização e tradução do também poeta Alexei Bueno. Este livro foi finalista no Jabuti de 2018. Alexei também traduziu o belo ensaio “O nome e a natureza da poesia”, de A.E. Housman, que publicamos através do selo Meiomilheiro – livros com preço mais em conta. No campo da prosa publicamos apenas um livro até o momento: “Havergey”, do John Burnside. Uma ficção científica tendo como base uma viagem no tempo para discutir questões ambientais e de sobrevivência da humanidade. Livro bastante adequado para os dias de hoje, inclusive! Não saberia responder quais seriam os próximos lançamentos. As circunstâncias atuais impedem qualquer planejamento. Os livros continuam em circulação. Isso é bom. Os próximos passos dependem de muitas questões que escapam das minhas mãos.

 

Thiago E: No governo Bolsonaro, há uma dura perseguição às artes, manifestações culturais e, claro, ao cinema. Que avaliação você faz das produções tendo que lidar com tantos ataques?

Nos créditos finais do Bacurau, os produtores listaram os resultados do que foi gerado de emprego no filme, além de fortalecer a construção de nossa identidade nacional. Este é um exemplo, mas podemos lembrar de vários filmes brasileiros que geraram o pagamento de impostos, geraram trabalho e um significativo respeito ao nosso Cinema. No calor da hora, lembro, por exemplo, de filmes como Chuva é cantoria na aldeia dos mortos [Renée Nader Messora e João Salaviza]; Greta [Armando Praça]; Azougue Nazaré [Tiago Melo]; A cidade do futuro [Marília Guerreiro e Cláudio Marques]; Arábia [João Dumans e Affonso Uchoa]; Temporada [André Novais Oliveira] e tantos outros. Contrário a um fato como esse, é o ódio à nossa própria identidade. Ponto. Como lidar com o ódio? Seguir cobrando os nossos direitos e trabalhando com esmero.

 

Thiago E: 10 filmes que você indicaria para pensarmos o Brasil.

A lista dialoga com este exato momento sem estabelecer uma sequência de prioridades…

todos os dez filmes que seguem podem e devem ser revisitados com igual interesse e entusiasmo: Bacurau [Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019]; Cidadão Boilesen [Chaim Litewski | 2009]; Katya [Karla Ho- landa | 2012]; o fim e o princípio [Eduardo Coutinho | 2006]; Estou me guardando para quando o carnaval chegar [Marcelo Gomes

| 2019]; O prisioneiro da grade de ferro [Paulo Sacramento | 2003]; Divino amor [Gabriel Mascaro | 2019]; Martírio [Tatiana Almeida, Ernesto de Carvalho e Vincent Carelli | 2016]; Terra em transe [Glauber Rocha | 1967]; Tatuagem [Hilton Lacerda | 2013]. Certamente lembrarei de outros dez filmes logo após enviar esta lista. Todas elas engessam, de certa maneira, a dinâmica da memória. Vou acrescentar mais um para ficarmos ao menos com onze filmes. Particularmente, não gosto do número dez, prefiro números ímpares como o onze. Fecho o ciclo com Marighella, de Wagner Moura. Uma produção de 2019 que espero lançar aqui no Cinemas Teresina com a presença do Wagner para agigantar o debate.

Thiago E: Você dirigiu e escreveu mais de dez filmes. Todos tem a participação de Gardênia Cury na produção. Como é viver essa rara parceria?

Eis a mais fácil das questões. Nos entendemos  muitíssimo  bem  exatamente  porque respeitamos, antes de tudo, o espaço de cada um. E temos consciência da responsabilidade de cada trabalho. Essa trinca [ela, eu e o trabalho] estabelece nosso território de caminhada. Não precisa complicar a vida.

 

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